quinta-feira, 19 de junho de 2014

CAPÍTULO 1




- O corvo precisa ser morto.


Alguns anos antes, ninguém poderia imaginar que Felipe estaria sentado na cadeira mais alta da Grande Cabana, proferindo aquelas palavras. Os tempos é que eram outros, porém a sensação dominante é que embora os corpos fossem os mesmos, outros espíritos agora lhe animavam a existência, expulsando para longe os que antes habitaram aquelas carcaças de carne.

Não havia surpresa no que foi dito, todos já esperavam pelo momento em que palavras como aquelas seriam proferidas. A cada novo relatório daqueles que se aventuravam além da proteção da Vila em busca de respostas, a cada nova tentativa, a cada novo fracasso. A quase ilusão de que essa repetição acabaria por se transformar em rotina, e que como tal produziria um falso clima de segurança, de estabilidade, cegando-os cada vez mais em relação à dura realidade que os cercava, nada disso os fazia esquecer que aquilo não perduraria por muito tempo. Reagir ou perecer! A sina que lhes foi imposta, por mais cegos que quisessem estar, lhes vinha a mente sempre que deitavam a noite, a procura de um sono tranquilho que nunca chegava.

Embora ninguém tenha falado nos minutos que se seguiram, enquanto se levantavam em silêncio e se retiravam da Grande Cabana, mil pensamentos passavam em suas cabeças, muitos deles gritando ferozes, fruto dos medos e incertezas de quem os elucubrava, ainda que sempre inaudíveis para os demais. Após andarem um pouco em silêncio, sem rumo definido, Ielin resolve compartilhar com o amigo alguns dos pensamentos e preocupações que o afligiam:

- O que você acha disso tudo Boris? Será que estamos apenas repetindo os mesmos erros?
- Não ouso ter opinião quanto a isso Ielin. Não creio que eu tomaria o mesmo caminho de Felipe. Tampouco gostaria de estar no lugar dele. Quem poderia imaginar que ele acabaria se tornando nosso líder?
- E o corvo? Acha que temos alguma chance contra ele? Acha que se o derrotarmos alguma coisa mudará?
- Procuro não me ocupar com pensamentos como esse Ielin, que nada nos agrega. De que adianta ter uma opinião sobre isso? De que modo isso deve influenciar minhas decisões atuais? De que modo isso deve influenciar meu modo de proceder? Você Ielin, em especial, deve se esforçar para não esquecer de seu aprendizado. Os erros se repetirão enquanto nós pudermos com ele aprender. Mantenha-se centrado, para que sua atenção não esteja distraída e perca o foco naquilo que realmente pode lhe ajudar, lhe acrescentar. Do contrário erros, acertos, nada disso terá grande relevância.
- Sábias palavras amigo Boris, de fato, sinto-me como se o passado fosse uma outra vida distante, da qual eu não mais tivesse o direito de fazer parte. Devo me centrar e recordar meus ensinamentos. Peço porém sua opinião e auxilio nesse momento. O que eu deveria ver que meu descontrole não me permitiu? A quais questões ou conclusões minha atenção deveria ter ido antes que se desgastasse em questões inúteis, frutos do medo e da ansiedade que me dominavam?
- Perceba Ielin- diz Boris reduzindo seu tom de voz e aproximando-se mais de seu interlocutor- a questão que se desvela diante de mim é, o que será feito se Hugo retornar? É preciso que estejamos preparado para isso. Não sabemos como Felipe reagiria, e muitos dentre nós se afeiçoaram a ele. Um homem comum como aquele no comando transmite a ideia de qualquer um pode chegar lá. Se até Felipe chegou, qualquer um de nós pode. Essa ideia pode ser perigosa, e se Felipe recusar a curvar-se perante Hugo, muitos da comunidade o apoiarão.
- Minha fé na volta de Hugo estava tão abalada que sequer pensei nessa possibilidade Bóris. De fato, me parece que Felipe possui um carisma maior que o de seu antecessor. Devemos identificar aqueles que possam ser ainda leais a Hugo, e criarmos um grupo secreto, capaz de agir prontamente e de modo articulado no caso da volta de nosso chefe.
- Muitos culpam Hugo por nossa sina. Alguns chegam a alegar que o que ocorreu foi fruto de seu modo ríspido e conservador de nos guiar.
- Mas nenhum outro chefe poderia ter previsto o que aconteceu, ninguém poderia ter evitado.
- Essa é a verdade Ielin, porém nem sempre a verdade é a que acha o caminho mais próximo e largo até o coração das pessoas. Muitas vezes a mentira e o auto engodo são mais reconfortantes, mais tranquilizadores. Precisamos estar preparados.



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