- O corvo precisa ser
morto.
Alguns
anos antes, ninguém poderia imaginar que Felipe estaria sentado na
cadeira mais alta da Grande Cabana, proferindo aquelas palavras. Os
tempos é que eram outros, porém a sensação dominante é que
embora os corpos fossem os mesmos, outros espíritos agora lhe
animavam a existência, expulsando para longe os que antes habitaram
aquelas carcaças de carne.
Não
havia surpresa no que foi dito, todos já esperavam pelo momento em
que palavras como aquelas seriam proferidas. A cada novo relatório
daqueles que se aventuravam além da proteção da Vila em busca de
respostas, a cada nova tentativa, a cada novo fracasso. A quase
ilusão de que essa repetição acabaria por se transformar em
rotina, e que como tal produziria um falso clima de segurança, de
estabilidade, cegando-os cada vez mais em relação à dura realidade
que os cercava, nada disso os fazia esquecer que aquilo não
perduraria por muito tempo. Reagir ou perecer! A sina que lhes foi
imposta, por mais cegos que quisessem estar, lhes vinha a mente
sempre que deitavam a noite, a procura de um sono tranquilho que
nunca chegava.
Embora
ninguém tenha falado nos minutos que se seguiram, enquanto se
levantavam em silêncio e se retiravam da Grande Cabana, mil
pensamentos passavam em suas cabeças, muitos deles gritando ferozes,
fruto dos medos e incertezas de quem os elucubrava, ainda que sempre
inaudíveis para os demais. Após andarem um pouco em silêncio, sem
rumo definido, Ielin resolve compartilhar com o amigo alguns dos
pensamentos e preocupações que o afligiam:
- O que
você acha disso tudo Boris? Será que estamos apenas repetindo os
mesmos erros?
- Não
ouso ter opinião quanto a isso Ielin. Não creio que eu tomaria o
mesmo caminho de Felipe. Tampouco gostaria de estar no lugar dele.
Quem poderia imaginar que ele acabaria se tornando nosso líder?
- E o
corvo? Acha que temos alguma chance contra ele? Acha que se o
derrotarmos alguma coisa mudará?
- Procuro
não me ocupar com pensamentos como esse Ielin, que nada nos agrega.
De que adianta ter uma opinião sobre isso? De que modo isso deve
influenciar minhas decisões atuais? De que modo isso deve
influenciar meu modo de proceder? Você Ielin, em especial, deve se
esforçar para não esquecer de seu aprendizado. Os erros se
repetirão enquanto nós pudermos com ele aprender. Mantenha-se
centrado, para que sua atenção não esteja distraída e perca o
foco naquilo que realmente pode lhe ajudar, lhe acrescentar. Do
contrário erros, acertos, nada disso terá grande relevância.
- Sábias
palavras amigo Boris, de fato, sinto-me como se o passado fosse uma
outra vida distante, da qual eu não mais tivesse o direito de fazer
parte. Devo me centrar e recordar meus ensinamentos. Peço porém sua
opinião e auxilio nesse momento. O que eu deveria ver que meu
descontrole não me permitiu? A quais questões ou conclusões minha
atenção deveria ter ido antes que se desgastasse em questões
inúteis, frutos do medo e da ansiedade que me dominavam?
- Perceba Ielin- diz
Boris reduzindo seu tom de voz e aproximando-se mais de seu
interlocutor- a questão que se desvela diante de mim é, o que será
feito se Hugo retornar? É preciso que estejamos preparado para isso.
Não sabemos como Felipe reagiria, e muitos dentre nós se afeiçoaram
a ele. Um homem comum como aquele no comando transmite a ideia de
qualquer um pode chegar lá. Se até Felipe chegou, qualquer um de
nós pode. Essa ideia pode ser perigosa, e se Felipe recusar a
curvar-se perante Hugo, muitos da comunidade o apoiarão.
- Minha fé na volta de
Hugo estava tão abalada que sequer pensei nessa possibilidade Bóris.
De fato, me parece que Felipe possui um carisma maior que o de seu
antecessor. Devemos identificar aqueles que possam ser ainda leais a
Hugo, e criarmos um grupo secreto, capaz de agir prontamente e de
modo articulado no caso da volta de nosso chefe.
- Muitos culpam Hugo
por nossa sina. Alguns chegam a alegar que o que ocorreu foi fruto de
seu modo ríspido e conservador de nos guiar.
- Mas nenhum outro
chefe poderia ter previsto o que aconteceu, ninguém poderia ter
evitado.
- Essa é a verdade
Ielin, porém nem sempre a verdade é a que acha o caminho mais
próximo e largo até o coração das pessoas. Muitas vezes a mentira
e o auto engodo são mais reconfortantes, mais tranquilizadores.
Precisamos estar preparados.